Qual a cor da abordagem?

policia batendo em negros

O transporte público é quase sempre um espaço onde as pessoas passam parte do seu tempo de maneiras variadas: ouvindo música, no instagram, dormindo… Eu prefiro pensar, acho um momento apropriado; penso sobre a minha vida, sobre o que eu tenho que fazer, sobre a situação política e paro, me dá vontade de chorar… Volto a pensar sobre a minha vida e passou pela minha cabeça por um momento que Bolsonaro liberou 1 milhão de reais para um tour na Europa para militares e o quanto isso nos deixa vulneráveis; o quanto eles são adorados pelo novo presidente e dá a eles aval para fazerem o que quiser.

E hoje foi mais um dia extenso, saí pra comprar umas coisas de manhã e depois fui na casa de uma amiga. Conversamos sobre o caso de um carro que foi alvejado com 18 tiros em Minas, pela polícia, por que o motorista foi confundido com um bandido e ela me falou do quanto aquilo estava próximo de nós. Voltei à noite pra casa, de Uber. No caminho passamos por uma blitz, o motorista me avisou que iria abaixar os vidros e ligar a luz do carro (uma vez um outro motorista me disse que a polícia tinha orientado a equipe do Uber a fazer isso, aqui em Salvador pelo menos) e assim ele o fez e passamos pela blitz. Quando seguimos eu comentei que estava passando por muitas blitz’s ultimamente e ele me respondeu que achava estranho que naquela em particular ninguém estivesse sendo parada. Localizada na Avenida Luís Eduardo Magalhães, estrategicamente próxima ao São Gonçalo e a Baixinha do Santo Antônio, a blitz estava ali esperando por alvos “suspeitos”, provavelmente não tinha nenhum, apesar de ter vários carros na nossa frente.

Mais à frente, já na ladeira que dá no meu bairro, haviam três policiais abordando dois jovens negros e de longe podíamos ver que os meninos estavam se esforçando para convencê-los de que eles eram apenas jovens cidadãos comuns. Foi quando o carro em que eu estava foi parado e o motorista seguiu a mesma regra, foi cumprimentado e pra minha surpresa me mandaram abaixar os vidros sem cumprimentos e o diálogo se seguiu assim:

Policial 1:Você tá vindo de onde?
Eu parei dois minutos sem entender o que eu deveria dizer exatamente, porque além de ser uma situação nova, não fazia sentido me perguntarem o bairro da onde eu vinha, mas então eu respondi: Da Paralela.
Policial 1: Em que lugar da Paralela?
Nesse momento eu virei para o Uber e pedi para ele explicar o nome da rua que ele foi me buscar e assim ele fez, deu um ponto de referência ainda de sobra.
Policial 1: Não, não sei onde é esse lugar, qual o nome do bairro?
Dessa vez eu respondi que era na Paralela e dei outro pronto de referência e ele insistiu no interrogatório.
Policial 1: E você vai pra onde?
Eu: Para casa, eu moro aí na Rua Melo Morais Filho.
Policial 1: Aonde? Como é seu nome?
Não hesitei em responder lógico, mas nada fazia o menor sentido na minha cabeça. Mas a arma tava apontada pra mim, ela poderia disparar acidentalmente e alvejar o carro 18 vezes por engano.
Policial 1: Veja aí Policial 2, você conhece essa menina? Ela não sabe nem da onde veio. (Como assim cara?! Eu falei da onde vim, VOCÊ que não sabe onde fica!!!) Você conhece ela?
Policial 2 balançou a cabeça negativamente, e foi o momento em que eu temi. Não havia passado pelo “identificador oficial” do bairro, isso só se apresentava a eles como prova da suspeição.
Policial 1: O que você tem na sacola?
Eu: Compras.
Policial 1: Cadê? Tira tudo da sacola!
Eu tirei o primeiro saco, eram pedrinhas de aquário para colocar na caixa higiênica dos meus gatos. Ao fazer isso com muita raiva, eu falei que eram pedras, e então…
Policial 2: Eita fala em pedra e eu já fico nervoso!
Vocês acreditam nas figuras responsáveis pela manutenção da ordem e segurança da sociedade?

Finalmente eles liberaram a gente e enquanto tudo isso acontecia eu mantive o meu olhar fixo nos olhos do policial armado que esteve o tempo todo insinuando que algo estava errado. E apesar dele ser negro retinto, eu sei que o seu olhar de julgamento estava na minha cor. Outrora eu ouvi um policial falando que a tatuagem na pele negra é sinal de “coisa errada” e o meu cabelo crespo, bom, rsrs… A todo momento eu pensava no quanto aquilo poderia em um estalar de dedos se tornar uma tragédia completamente absurda e o quanto aquele olhar do policial não me era ameaçadora, pois eu não me sinto humilhada pelo que ele estava pensando de mim e quem ele poderia julgar que eu era, mas sim por saber que isso não interessava no final das contas. Eu precisava ter passado por isso pra entender que essa é a sua profissão, mas é a sua escolha apontar uma mira para uma mulher negra por ela ser negra, porque eu poderia morar em um bairro nobre, mas a ascensão social não muda a minha pele, assim como o meu diploma não impediu que eu vivesse uma situação como essa. Ainda que eu tivesse dinheiro, eles não seriam impedidos de me abordar ou se sentiriam coagidos a não fazê-lo, assim como não foi no caso de Crispim Terral, Valéria Lúcia ou do estudante negro que foi preso suspeito de “tentar roubar o próprio carro”.

Quando eu entrei na Psicologia, desde o começo eu questionava a profissão sobre o seu papel no enquadramento social e consequente medicalização da vida, os que se adequam aos padrões sociais aceitáveis são tidos como normais e os que fogem à norma precisam ser docilizados. Eu sei que ainda há muitos profissionais que acreditam na Eugenia ou que ignoram os fatores raciais como importante propulsor da nossa sociedade e há os muitos que levam à risca o tecnicismo e mecaniza a vida dos sujeitos. Eu escolhi não fazer isso e estudar os processos racistas no adoecimento do corpo negro, na violência que interfere diretamente na nossa saúde e assim fazer diferente do que a Psicologia Tradicional impõe. O policial militar é formado para “primar pelo zelo, honestidade e correção de propósitos com a finalidade de proteger o cidadãosociedade e os bens públicos e privados, coibindo os ilícitos penais e as infrações administrativas”. Isso inclui adotar como perfis matáveis para cumprir o seu papel, o sujeito negro, mas o policial que me abordou escolheu seguir as ordens ainda que isso violente uma pessoa só pelo fato dela ser o que ela é e semelhante a ele. Sempre é uma escolha! E passar por isso foi necessário para que eu entendesse que nem todo policial é corporativista, mas os que escolhem ser compõe quase toda a categoria deles e isso acontece deliberadamente porque eles acreditam mesmo que todo preto e pobre é bandido e merece toda a sua hostilidade.

Qual é mesmo o objetivo disso? Por que eu seria suspeita por vir de um bairro de Salvador? Será que se eu tivesse vindo de outra periferia, eu teria sido revistada? Será que se eu fosse uma mulher branca, meu uber teria sido parado?

70% das vítimas de arma de fogo são negras e boa parte desses números são produtos da hostilidade da Polícia. Estamos em 2019 com altas tecnologias e maior ocupação dos espaços de poder por pessoas negras, mas ainda hoje a carne mais barata do mercado ainda é a carne negra.

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“Baseado em Fatos Raciais” o documentário que discute a proibição das drogas e o seu surgimento

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A proibição das drogas atualmente tem sido o ponto de pauta problemático que divide opiniões e é responsável indiretamente pelo encarceramento em massa e o genocídio dos jovens negros no Brasil. Vou explicar! O Estado interfere no comércio ilegal de drogas seletivamente proibidas, como a maconha, cocaína e crack, as mais populares, dessa forma, a comercialização ilegal se tornou um comércio lucrativo que possibilita o crescimento econômico para grandes traficantes e seus investidores afins, a milícia, políticos e empresários. No entanto, o impacto nas comunidades periféricas gera a criminalização da pobreza que gera violência policial e culmina com a prisão e morte de jovens negros e com grande ênfase aos JOVENS NEGROS, pois os dados estatísticos – 76% da pessoas que foram mortas eram negras ou pardas só em 2016- só enfatizam o que vemos nos noticiários diariamente: essa pobreza tem cor assim como os números que compõe a superlotação nas penitenciárias brasileiras.

O documentário faz um resgate histórico do uso da maconha nos Estados Unidos e o começo da proibição do uso, tudo começa com o Jazz e os maconheiros que usavam o efeito da droga como instrumento criativo já que as pessoas ficam com a sensação de lentidão e isso os ajudaram a produzir o ritmo do Jazz. Os brancos temiam que os homens negros utilizassem a maconha para seduzir as jovens donzelas brancas e assim começou a levantar a pauta da proibição e relacionar a droga a vadiagem e a prender negros devido ao uso, mas tudo isso tinha uma forte relação ao fato de que o Jazz foi criado por negros das comunidades periféricas do EUA, é a lógica colonizadora de que os negros continuem mantidos nas senzalas servindo ao homem branco que o escravizou. No governo de Reagan, houve uma forte campanha contra o uso da maconha, e os números do encarceramento foram crescendo gradativamente, já nessa época o reggae começou a tomar um importante lugar no país, através da jamaica e de uma religião, o Rasta, que utilizava a maconha como parte do seu ritual. Bob Marley conquistou o mundo com o ritmo que representava a cultura negra, a situação do negro na sociedade e o grito de apelo para a liberdade. Nesse momento as leis começam a se tornarem rigorosas e todo o processo de proibição e aumento de facções criminosas nas periferias começaram a se tornar abrangentes. E é também nesse momento que a onda do crack e da cocaína se torna avassaladora e o Rap surge como resposta. Para quem não sabe, o Rap é um gênero musical que também surgiu nas comunidades negras e pobres, e como tal é a poesia que denuncia racismo, uso e abuso de álcool, crack e cocaína. E é mais um gênero que defende o uso da maconha nas letras das músicas.

Aqui no Brasil, temos alguns documentários sobre a legalização da maconha e outro que historiciza o uso da planta como recreação. Tudo começa com os índios, no documentário “Dirijo”, disponível no youtube, os indígenas contam como fumar a planta que eles nomeavam de dirijo, tinha relação com a cultura e a socialização entre eles, além de fazer parte da medicação com o chá das folhas. Após a proibição do uso da maconha a FUNAI e a Polícia foram impor a lei e a ordem e proibiram as tribos de usarem o chá e junto com a proibição também chegou a comercialização do álcool que resulta em números alarmantes de dependentes entre tribos atualmente, sendo frequente o uso de cerveja, cachaça e em alguns casos álcool etílico e gasolina, segundo uma reportagem do G1.

Existem pesquisas que teorizam que o uso da maconha destrói os neurônios, assim como existem outras que refutam esses resultados e a sua improcedência já que as células neuronais por si só se destroem para gerar outras células num processo de renovação celular. Mas a realidade é que a proibição se trata de uma decisão política que gera lucros não somente na comercialização como também nos resultados dela, nos projetos milionários da segurança pública que aparentemente demonstram efetividade e consequentemente mais investimentos e mais votos, mas debaixo do pano existe um sistema sádico que decididamente quer “limpar” o sangue negro da sociedade. Desde os jornais sensacionalistas que objetificam o corpo negro em suas diversas formas e conduz a sociedade ao “Terror das drogas”, até o governador que aplaude a ação da polícia de matar 13 adolescentes negros em um bairro periférico que comprovadamente não tinha nenhuma ligação com o tráfico de drogas e ainda que tivesse, como no caso da chacina do Cabula. O que muda a realidade de crianças e jovens na sociedade é a cidadania, que significa poder estudar sem ter que passar fome, ter acesso à saúde, ao lazer que traga novos conhecimentos. Quantos negros você consegue contar nos dedos da mão que tem acesso ao teatro ou cinema? Ou tem pelo menos metade das matérias da escola pública com professor? É difícil sobreviver em uma sociedade que condena a sua existência e dificulta o desenvolvimento e exercício da cidadania de jovens negros da periferia. A falta de respeito e o descaso resulta na morte e na condenação da comunidade preta e pobre desse país a lotarem as prisões e os cemitérios do país.

Referências:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/06/05/taxa-de-homicidios-de-negros-cresce-26-em-10-anos-mortes-de-brancos-caem.htm

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2012/11/aumento-de-alcoolismo-e-de-crimes-entre-indigenas-preocupa-no-am.html

 

 

 

 

O quartinho dos fundos tá vazio?

9-quarto-empregada-visÃo-banheiro-empregadaPensar sobre o período escravocrata é pensar a atualidade e perceber o quanto ainda não superamos ele. Estou falando da nossa mentalidade colonial onde se assume apenas o papel do colonizador e cada extrato da sociedade que tem “poder” para tal reproduz a necessidade de ter alguém que é explorado para fazer atividades subalternizadas, como a empregada doméstica, por exemplo. Essa mentalidade, faz parte da nossa constituição enquanto sociedade e está presente nos nossos anseios mais profundos; faz parte da planta baixa dos apartamentos e se apresenta no “quartinho dos fundos”.

Há alguns anos atrás fomos, eu e minha mãe, visitar uma tia minha que mora em um bairro rico na cidade de Salvador. Ao chegar na portaria, o porteiro interfonou, confirmou a nossa subida e nos orientou que fôssemos pelo elevador dos fundos: o de serviços. Obviamente ele estava reagindo ao racismo que ele aprendeu durante toda a vida, isso somado a outros âmbitos da vida que produziu aquela atitude, afinal tudo à nossa volta afirma cotidianamente que o lugar do negro é no quartinho dos fundos. Bom, é possível que a essa altura algumas pessoas ainda não entenderam sobre o que eu tô falando, vou ser mais explícita. Durante o período da escravidão, os escravizados não tinham o direito de coabitar outros espaços sociais da casa, que não a cozinha, se não fossem-lhes ordenados a fazer isso. A partir do ano de 1940, nos Estados Unidos, os negros viviam em um regime de apartheid, no qual os espaços públicos e privados, se mantinham desde a escravidão separados por raças, o exemplo mais comum são os transportes públicos nos quais as pessoas brancas podiam sentar onde quisessem e para as negras era reservado apenas algumas cadeiras no fundo do ônibus e caso essa regra fosse violada, elas sofriam toda sorte de violência e/ou eram presas. Já aqui no Brasil aprendemos desde muito cedo a estorinha de que existiu a escravidão, mas era mais branda que em outros lugares e, além disso, convivíamos todos amistosamente. Bom, rsrsrs! O mito da Democracia Racial. Há vários exemplos sociais da inexistência disso desde o cientificismo racista de Nina Rodrigues que tentava provar a relação biológica entre a negritude e a criminalidade, à literatura clássica de Gilberto Freyre, Casa grande e Senzala, que tenta nos convencer que o português e a escravidão foi a melhor coisa existente nesse país, com relação ao desenvolvimento econômico social e étnico, afinal vivemos num país amistoso. Abdias do Nascimento escancara essa lorota no seu livro O Mito da democracia racial.

Após historicizar um pouco, vamos voltar para a atualidade: o que restou do quartinho dos fundos da escravizada na atualidade Brasileira? No Brasil ainda encontramos empregos em condições análogas à escravidão e indústrias da moda como Marisa, Renner, Zara, entre outras, financiando terceirizadas flagradas, nas quais, os trabalhadores recebiam quase nada de salário e trabalhavam em locais insalubres com riscos de acidente. Eu já ouvi, muito mais do que eu gostaria, pessoas falando sobre chamar meninas para morar na capital e trabalhar como empregadas domésticas, morando na casa dos empregadores e muitas vezes trabalhando muito mais do que a carga horária de trabalho permitida, porém ganhando muito pouco. O filme nacional Que horas ela volta? é um bom exemplo de como as coisas acontecem, mas ainda é embelezado perto da realidade de algumas empregadas domésticas, principalmente se eles estão no interior da Bahia. Acontece que, a representação do “quartinho dos fundos” é o lugar de exclusão e de violência que muitas vezes chegam a físicas e demarcam os lugares de poder. Ter uma empregada no Brasil é sinônimo de poder aquisitivo e nós não percebemos a ironia por trás disso, ainda está sendo reproduzido a escravidão cotidianamente e isso é reforçado socialmente. As denúncias ao MPF de casos que apresentam o dito acima e um pouco mais ocorrem em todo o país e com mais frequência do que deveria.

É uma prisão ideológica que esbarra com os avanços resultados das políticas públicas que deram condições à filha da empregada de entrar na mesma Universidade que o filho  do patrão, cursando medicina e daí todo o incômodo com a política Petista: agora a empregada tá viajando de avião para curtir as férias e a ascensão social da filha muda o lugar ocupado pela mãe de maneira a se alcançar a igualdade racial. Trata-se de uma sociedade que faz caridade como “bons cristãos”, mas não suportam a igualdade de direitos e políticas públicas “é coisa de comunista” e cotidianamente mantém os lugares de exploração mais comuns, mantendo o status quo.

 

Sobre a escravidão:
https://reporterbrasil.org.br/2012/07/especial-flagrantes-de-trabalho-escravo-na-industria-textil-no-brasil/

Se fere minha existência, eu serei Resistência

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Todo dia de manhã, eu tenho acordado, penso no que está acontecendo no Brasil, tem dias que choro, mas no fim eu concluo: “preciso resistir”! Existe algo na terapia que muitas pessoas não sabem: quem descobre sobre a sua vida e sobre você, é você mesmo, e o terapeuta é um facilitador, então eu parei para pensar- apesar de não estar em terapia nesse momento, eu utilizo o que aprendi para dar conta, mas não recomendo, FAÇAM TERAPIA- e pensei em todo o meu percurso até os meus 25 anos de vida.

Minha família por parte de pai, que foi com os quais eu cresci, sempre me ensinou que Nós, pretxs, precisamos estudar e trabalhar muito. Meu tio tinha um discurso dos três princípios: primeiro o estudo, depois o trabalho e por último um marido. Obviamente conservador, mas a ideia principal eu captei muito por conta da minha própria experiência, então eu cresci sendo estimulada por elxs e a minha mãe que investia muito em leitura para mim, além de trabalhar muito para pagar escola particular. Então eu nunca perdi de ano e sempre me cobrei muito para tirar boas notas, logo, como eu tinha dificuldade com matemática, eu pedia ajuda a algumas amigas mais velhas e nunca aceitei que minha mãe gastasse ainda mais comigo com reforço escolar. Eu tive sorte com algumas coisas, e uma tia que custeava muita coisa quando precisávamos.

Na adolescência, eu observava meus colegas com atitudes de rebeldia e até quis me igualar a eles, ser como todo mundo. Mas aquele lugar não me pertencia, existiam pessoas investindo em mim e eu mesma precisava, para sobreviver. Então eu continuei minha luta diária, numa cidade governada por João Henrique e que foi a pior época de Salvador, então os pontos de ônibus ao meio dia, sem proteção e com esperas sem fim do ônibus era a minha labuta. Muitas vezes, eu almoçava Mikão, pra economizar o pouco dinheiro que eu tinha para o lanche para ter dinheiro durante a semana inteira, desde cedo eu aprendi a pensar bem nele antes de gastar, por que poderia servir para comprar o pão. Mas eu continuei sem perder de ano, e me esforçando ao máximo para absorver tudo. Nunca fiz um curso de inglês, e mal tive aulas na escola, mas eu aprendi muita coisa com a internet, sozinha.

Depois de dois anos tentando o vestibular, eu consegui uma parte de uma bolsa em um cursinho, e a outra parte minha tia e minha mãe dividiram. De forma alguma eu poderia pensar em não passar em nenhum vestibular. Como eu sempre estudei em instituições privadas, tive muitas amigas brancas, poucas pretas. E quase todas muito privilegiadas financeiramente, logo, eu fui assimilando e dando sentido para as situações de racismo que eu vivenciei e fui exposta a minha vida inteira, inclusive por me relacionar com homens brancos nesse processo e obviamente que eles não queriam que ninguém ficasse sabendo. Sempre foi muito nítido para mim, as minhas amigas eram sempre as mais bonitas e cobiçadas e eu era a broder! Então eu compensava sendo inteligente, mesmo com as dificuldades e todo o cansaço que resistir exige; ler livro em engarrafamento era um hábito pra mim.

Quando eu passei no vestibular, graças ao processo de interiorização do ensino iniciado no governo de Lula quando Haddad era ministro, eu vim fazer Psicologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Como a UFBA era na época muito concorrida, a minha nota não foi suficiente para passar em psicologia, então acabei conseguindo em uma instituição nova que poucas pessoas conheciam. Providência divina! Eu tive uma formação de êxito que durou exatamente o tempo previsto de curso, apesar de muita greve e ocupação: cinco anos. Cinco anos de muita luta, literalmente. Preto na Universidade incomoda; incomoda colega, professor, servidor. Uma vez eu ouvi de um professor que os cotistas tinham baixado o nível do curso de medicina, pois eram pessoas que não sabiam nem escrever; até hoje eu me questiono como ele sabia quem era ou não cotista apenas corrigindo prova e olhando para a cara dos estudantxs? Ora, ora, preciso ser redundante, a galera se treme com os pretos na Universidade, bebê! Aqui é dado a largada, mas muita gente emperra no caminho porque não tem dinheiro, claro que a maior parte dos pretos. Por exemplo, existe uma avaliação chamado Barema, onde você precisa cumprir carga horária complementar indo para eventos, que custa muitas vezes dinheiro de inscrição, para o deslocamento, estadia, etc. É por isso que existem as Ações Afirmativas, também pensado pelo ministro Haddad, onde existem programas de permanência com bolsas, residência, auxilio deslocamento para quem não é da cidade. Obviamente que eu recebi bolsa durante toda a minha formação, e ainda assim eu vivi momentos de não ter nem o que comer e nem grana para comprar, mas aí eu resisti.

Eu nasci com buceta e preta! Eu sofri assédio sexual, abusos, ameaças de estupro, e ainda fui cobrada a entrar no padrão: alisar o cabelo, fazer academia, ser bonita para ser olhada. Derramei muita lágrima, dependi de homens e quase sempre me decepcionei com eles e aprendi a me virar sozinha contando com algumas pessoas, a maior parte delas, mulheres. Muitas vezes auto-didata, eu entendi desde muito cedo que eu valia muito pouco para as pessoas por ser mulher e preta até abrir a boca e transmitir o que penso com nitidez, como é até hoje. As pessoas muitas vezes me ignoram, uns ouvem o que eu tenho a dizer quando eu começo a falar, e outros continuam a me ignorar mesmo que eu fale. Isso acontece porque simbolicamente as pessoas querem e esperam que eu ocupe o lugar de submissão e do silêncio para ser objetificada e explorada. E ainda cotidianamente eu preciso mostrar que tenho plena competência para ser psicóloga, por que ao me verem as pessoas pensam que eu sou qualquer funcionária, menos a com diploma de ensino superior.

Eu não cheguei até aqui para desistir agora! Nem por decreto eu abaixo a minha cabeça para ser governada por um facista que representa tudo de ruim que eu vivi a minha vida inteira. Todas as violências que eu vivi, não são nada perto do que as pessoas têm feito sendo legitimados. Eu sinto medo, mas eu sei que não estou só, eu tenho Iansã, eu tenho Oxum e Oxalá. Eu tenho minha mãe, minha família e minhas írmãs. Estávamos juntas na ciranda e sentimos a energia que juntas podemos emanar. A força que juntas alimentamos reciprocamente. Nós somos as bruxas que ELES não conseguiram queimar, pois trazemos nas veias o sangue da luta diária de sermos MULHER!

Quem é a sociedade que vota em Bolsonaro?

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Eu tenho pensado muito sobre a nossa situação atual tentando entender o que aconteceu com o nosso país. Então, andei pesquisando algumas coisas e assistido algumas entrevistas, documentários e filmes. A política é reflexo da organização social; é a própria interação social e a maneira como nossos políticos legislam e decidem por nós tem muito a ver com a forma como nos comportamos socialmente e não, eu não estou falando do “jeitinho brasileiro” que é o comportamento corrupto que demonstramos nas pequenas coisas, não existe só corrupção na política. Eu falo da vaidade e entre outras coisas, o egocentrismo que nos faz jogar baixo. O próprio ex-presidente do PSDB fez uma autocrítica ao seu partido por eles terem questionado a reeleição de Dilma e desde lá, o ego ferido por Aécio ter perdido, fez o partido vetar todas as propostas do PT, afastar a Dilma e o resto da história já conhecemos, atualmente o partido perdeu a maior parte das cadeiras do parlamento para o PSL. E assim somos nós, sociedade, brigamos tanto por tanto tempo por visibilidade, respeito, igualdade; estamos em uma sociedade estratificada por quesitos que diferenciam as oportunidades. Já sabemos que 9 em cada 10 presos ou mortos pela polícia são negros, assim como os índices de feminicídio aumentaram 37% para mulheres negras e diminuíram 12,7% para mulheres brancas. Se formos adiante com as comparações, vamos perceber o quanto somos intolerantes à diversidade, o quanto somos conservadores.

Não percebemos o Facismo chegando. Não atribuímos tanta gravidade quando algumas pessoas se queixavam do Politicamente correto, pois queriam continuar fazendo piada com as camadas oprimidas; não nos damos conta de que a nossa tia cristã que diz que “ser sapatão e viado é coisa do demônio” queria que literalmente fôssemos abraçar o capeta. Ainda que Bolsonaro diga que a “polícia tem que fazer o trabalho dela sem ser incomodada” e propõe o ¹Excludente de Ilicitude e ainda completa que não importa se morrer inocentes, ele é defendido por camadas populares também. Há uma ingenuidade na ideia de que o projeto de governo dele é um disparate desgovernado, mas ao ver a entrevista do seu assessor, o economista Paulo Guedes², eu percebi que existe um projeto liberal que agrada e muito empresas privadas, pois envolve a venda da Petrobrás, a cobrança de mensalidades nas Universidades Públicas, o sucateamento do SUS e da Assistência Social. Não é por coincidência que o STF agora está investigando o candidato por crime eleitoral por estar sendo financiado por empresas que estão pagando para impulsionar Fake News sobre Manuela e Haddad, o que acirrou o Discurso de ódio antipetista.

As pessoas ao meu entorno estão tristes, com medo ou inseguras, pois não se trata apenas do poder executivo está sendo ocupado por alguém que representa tanta coisa ruim, mas também por que o Politicamente Correto foi abandonado e as pessoas estão externalizando todo o ódio que foi por muito tempo velado. O que Bolsonaro representa é o que há de mais conservador na sociedade; NÃO EXISTE DEMOCRACIA RACIAL, MERITOCRACIA E MUITO MENOS IGUALDADE DE GÊNERO. E é isso que as pessoas não estão conseguindo ver, os avanços que temos feito é retroceder agora. É voltar para um momento em que a população LGBT precisa voltar para o armário, em que o pobre volta para a linha da miséria e a classe média para a linha da pobreza. Pensem a quantidade de empregos que serão perdidos com a privatização das estatais, em quantos pobres vão morrer na periferia porque a polícia vai poder entrar e matar e ser condencorada por isso, se sendo crime eles já matam agora o Genocídio vai tomar mais força. As Universidades Púbicas são responsáveis não somente pela educação, mas pelo avanço científico, econômico e social. O que seria de Santo Antônio de Jesus, onde muitas pessoas vivem de construir e alugar casas para estudantes, sem a UFRB?! É só uma questãozinha da pontinha do Iceberg que precisa ser pensada. As escolas precisam de investimento, um olhar cuidadoso, e não serem extintas para que a educação seja à distância. A nossa segurança parte de uma boa educação, de investimentos em saúde, uma economia segura e o fim da desigualdade.

Estamos em um momento delicado, onde temos um inimigo muito forte: o ódio. E não é brigando entre nós por espaço que vamos derrotá-lo, muito pelo contrário, será pela união. Coletivizar não é fácil, vivemos por tanto tempo sobre o domínio do capitalismo que a individualidade tomou conta das nossas atitudes, o que nos impede de ter empatia, de olhar para o outro e entender que o outro tem um lugar de fala e muitas vezes esse lugar é silenciado e cabe a quem conseguiu avançar, romper com as amarras. É preciso aprendermos a dialogar entre nós, entre as nossas diferenças, respeitando o limite do outro, ouvindo muito mais e aprendendo a dividir. Eu, mulher preta, tenho muitas queixas com relação a como os homens pretos nos tratam, mas ainda que eu apresente as minhas críticas, para mim é importante deixar nítido que ainda os vejo como parte de nós e que isso não significa que eu vou deixar de falar o que penso quando achar necessário. Precisamos encontrar um jeito de aprender a dividir os espaços, nos fortalecer e devolver ao nosso inimigo todo o amor que lhe falta. Porque tudo o que não for adequado ao padrão do conservadorismo, é RESISTÊNCIA.

 

¹O “excludente de ilicitude” é a exceção em que os cidadãos, incluindo aí os próprios policiais, podem cometer um ato que está proibido e tipificado no Código Penal, como furtar, roubar ou matar. Um policial que mata um suspeito durante um tiroteio vai responder por homicídio, mas pode recorrer ao dispositivo e, se o juiz entender que as circunstâncias se encaixam no excludente, ele não será punido. Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/10/01/O-plano-de-Bolsonaro-sobre-%E2%80%98excludentes-de-ilicitude%E2%80%99
²Paulo Guedes é investigado desde o dia 2 de outubro pelo Ministério Público Federal em Brasília por suspeita de envolvimento em fraudes em fundos de pensão junto com dirigentes das entidades ligados ao PT e ao MDB. Acesso <https://oglobo.globo.com/brasil/mpf-investiga-paulo-guedes-assessor-de-bolsonaro-por-suspeita-de-fraudes-em-fundos-de-pensao-de-estatais-23145487&gt;

 

Não é guerra, é Genocídio!

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“Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito”

Cotas não é esmola, Bia Ferreira.

Eu mal podia conter as minhas lágrimas quando ouvi as palavras daquela moça: “Eles vão me matar senhora, como é que meus filhos vão ficar sem mim?”. Mulher negra, pobre e periférica, foi ameaçada por traficantes depois que um foragido foi morto pela polícia que ainda foi vista falando ao telefone na porta da “moça”; Ela foi sentenciada após isso como “caguete”, e precisou fugir com a roupa do corpo e a família para outra cidade. Seu desespero era conseguir uma documentação, na correria havia deixado sua bolsa na casa, e sair da cidade o mais rápido possível, se não seria morta.

Uma frase dita por ela ficou marcada na minha memória: “Nessa guerra deles quem sobra somos nós, moradores”. Isso tudo me tirou o sono, foi um dia daqueles. A Guerra às Drogas foi uma política que se iniciou em 2000 e foi uma decisão política. Desde então o Brasil gasta bilhões com a segurança pública e enfrenta o “Terror das Criancinhas”: as drogas ilícitas. Bom, o ser humano tem utilizado drogas desde que aprendeu a extrair elas da natureza. Desde então grande parte da sociedade consome analgésicos, Rivotril para dormir, remédios para melhorar a concentração, coca-cola, bebida alcoólica e sem contar com a nossa alimentação envenenada com os agrotóxicos que cada dia mais inflama nosso organismo. Outro dia eu fiquei surpresa com o saco de remédios que uma senhora tinha na bolsa. Mas por uma escolha política, decidimos que algumas drogas seriam condenadas ao ostracismo e o seu uso e comércio condenado legalmente e perseguido fielmente pela polícia.

Eu falei de tudo isso, pra chegar no ponto que mais me impressionou: a comunidade. É mais uma que eu conheço, afastada do centro da cidade, um lugar aparentemente abandonado, sem instituições legais, era como uma cidade abandonada e a pobreza estampada. Foi triste de ver. Como é um lugar longe, a locomoção depende do escasso transporte público para chegar ao centro da cidade, onde funciona toda a economia da cidade. Aquelas pessoas estão aprisionadas em sua própria realidade social! Uma vez eu ouvi de um morador, que a Samu não chega lá sem a polícia e muitas vezes demora muito para chegar, mas a farda acompanhada do Giroflex, marcava presença sempre. Quando um animal é enclausurado e violentado o que acontece se ele for solto? Já sabemos a resposta disso com o encarceramento em massa e o resultado da “ressocialização” realizada nas prisões. Essas pessoas são tratadas como lixo, a escória da sociedade, que não tem direito a ter direito e acessar o que é necessário para que ele aja com cidadania, sem acesso a educação de qualidade, saúde, lazer, o que já é de práxis ser dito. Mas por que isso continua sendo dito e ninguém ouve? Até quando vamos continuar deixando o Estado ter um pretexto para assassinar e desumanizar a população negra? Ou você ainda acha que é coincidência que a maior parte, se não toda essa população é negra? O nome disso é Racismo Institucional, o desleixo de uma instituição na oferta de serviços e implementação de políticas públicas e afins para a população negra. Quando a gestão administrativa da cidade não se interessa em criar ações para o acesso da comunidade a direitos básicos, como os citados, ela está sendo racista. Tudo se trata de escolhas políticas, ao invés de bilhões em segurança pública, se metade fosse investido em políticas públicas, essa realidade não seria tão drástica e não estaríamos perdendo a vida de negros e negras diariamente no confronto.

A sensação de impotência é sempre latente. Eu sei exatamente como tudo poderia ser feito diferente, o mínimo que estudamos na formação na UFRB me permitiu isso, mas eu não tenho poder para isso, não sozinha. Cada dia mais eu tenho tido certeza disso, estamos no mundo para vivermos coletivamente e isso significa igualdade entre as pessoas, significa pensar se queremos uma sociedade justa que nos dê segurança e não a ilusão dela. Mas para quem sente as opressões na pele isso é quase uma Utopia. E pra quem grita por justiça, esse é mais um lamento e uma denúncia dentre tantas. O que causa dependência e destruição não são as drogas, são as vulnerabilidades sociais, é ser um preto favelado que sofre todo tipo de violência e cresce sem boas perspectivas de futuro e no seu entorno o tráfico de drogas movimenta economicamente a sua comunidade. Os “meninos bons”, estão armados, mas possuem a ilusão de que tem dinheiro pra comprar dignidade. E quando não se tem dignidade tudo o que resta é a clandestinidade e a dependência, e sem tirar nem pôr, vemos isso principalmente com o álcool. O etilismo tem estado presente na vida da população negra desde que o escravo só tinha acesso a pinga para poder viver um pouco de liberdade. Então sem moralismos, tá na hora de pensarmos em alternativas de cobrar que a administração pública implemente e invista em políticas públicas.

“Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala
Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, ‘então não vai ter pão’
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita”

Cotas não é esmola, Bia Ferreira.

Quanto vale a felicidade ?! Até que ponto vale a pena “sangrar” pelo outro ?

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A sociedade impõe desde cedo que a mulher tem que ser submissa ao homem. Até a própria bíblia ensina e/ou transmite esse ensinamento por que ele é “o cabeça da casa”. Tantos paradigmas , tantas lições de como ser a esposa perfeita , no entanto , vale a pena sangrar pelo outro ou pelos dois ?!

Século XXI ,uma mulher não pode ser mãe solteira/solo. Para uma criação completa e perfeita de uma criança, é necessário(?), a presença do pai , e é daí que nasce o questionamento , será que é mesmo necessário ?! Tantas mães solo, que todos os dias acordam cedo, pra ir pro “corre”, arruma a(s) criança(s) pra ir a escola/creche/casa da moça que toma conta , e saem na “correria “mesmo, pra ir atrás dos seus sonhos/ da melhora de vida da família a qual ela tem que cuidar sozinha , porque aquele cara que a sociedade impõe necessário teve o seu direito de escolha e escolheu viver a sua própria vida sozinho ou com outra pessoa. O cara que teria que ser a cabeça da casa e que a mulher deveria ser submissa ,preferiu sair de casa por vários motivos : pra não ter tantas cobranças , porque disse que o amor acabou , porque a mulher agora não tem mais tempo de se cuidar como antes, porque o casal não estava mais se entendendo , uma infinidade de motivos ou desculpas mesmo .Mas, até ele sair , nossa cara , acontece de tudo um pouco , discussão intermináveis, trocas de ofensas quando, nenhum dos dois estão aguentando mais guardar aquilo que está incomodando, ele sai sem hora pra voltar , e ela fica em casa só ou na companhia do filho esperando por um alguém que, nem tem mais nenhuma vontade de esta ali com ela ou com a família. Porém ,se ele sair , como vai fazer pra se manter , já que é casada ? Já que tem filhos ? Ai, os filhos ! Como contar pra ele que o papai ta saindo de casa ? Que a qualquer momento ele pode aparecer com uma família nova? Enfim , uma solução : deixa as coisas como estão , o “papai” não vai sair de casa , os filhos não vão mais ficar tristes e nem perguntando porque ele dormiu fora! Mas, e a sua felicidade? Ah , nessa altura de campeonato, fica pra depois vale a pena o “sacrifício” , é para o bem de todos. Todos ?! Todos , quem ?!

Ninguém se lembra de como tudo começou. Eram flores , apelidos extremamente carinhosos , fotos pra eternizar todo e qualquer momento, trocas de mensagens nas redes sociais, declarações nas redes sociais, café na cama, alianças, tantas formas de expressar todo e qualquer sentimento , nesse começo há felicidade, mas aonde foi que essa felicidade foi parar ? No meio do caminho ?! Será que alguém esqueceu o que motivou tantos eu te amo ?! E porque depois de alguns anos o amor acabou ? Como assim , a relação desgastou? Não importa o que aconteceu , o que importa é que ele ta ali ,ta ali com os filhos , até dá o horário das suas próprias atribuições e o resto da casa e as crianças que fiquem pra mulher cuidar , ele só ta ali por estar mesmo . Um possível relato fictício , porém tão real na vida de varias mulheres , que não saem de uma relação abusiva por conta dos filhos , por que de fato não tem como se manter na vida , sem emprego, sem ter pra onde ir ou aquém recorrer , ou porque realmente amam e levam a instituição casamento a serio , onde somente a morte pode separar . É, a morte tem levados varias manas pro cemitério. Triste realidade , porém muito real . Tristeza, insatisfação com a vida, falta de amor correspondido , violência verbal , psicológica , vão puxando pro fundo do poço , até chegar na depressão , de forma muito silenciosa e sorrateira e quando se percebe , aquela mana se suicidou pra aliviar a dor ou saiu pelo mundo a fora ,achando que vai melhorar a vida daqueles que deixou em casa – isso é, quando , não sofre violência física e que a leva pro cemitério também da mesma forma.

A pessoa que vos escreve , é uma mulher negra , mãe solo de duas crianças, um menino de 4 anos e uma menina de 9 meses , filhos de pais diferentes , que mora com os pais e o irmão,ta no corre todos os dias , se dividindo entre faculdade e a casa , sendo que a maternidade chegou antes dos 18 anos completos , hoje tem 23 anos incompletos , mas já ta na porta de saída da faculdade. Corre pelas estações de metrô pra conseguir chegar em casa cedo , pra conseguir chegar no estagio cedo, pra chegar em casa antes da próxima mamada da bebê – que passou o dia inteiro sem a mãe. Uma mulher negra que cuida dos filhos com a ajuda e apoio financeiro dos pais . com ajuda e apoio moral de outras mulheres negras , as quais tenho maior orgulho de compartilhar a criação dos meus filhos. Que teve que sair pra ir estudar quando o primogênito tinhas apenas 60 dias de vidas, deixava ele com a mãe-vó , tirava leite a noite (parte mais dolorosa do dia), porém, não era só com a mãe-vó que ele ficava , tentou ter alguém na sua casa pra ficar com ele -não deu certo- então , ele ficava na casa do parente que podia acolher. Sair de casa não é/era tão doloroso, até porque a saída é ,pra garantir a melhora de vida deles , a própria melhora de vida , a estabilidade dos filhos .

É difícil ser mãe solteira , nessa sociedade extremamente machista , onde o seu filho tem que ser ensinado a ser “cabra- macho” . No entanto , o que é ser cabra-macho ?! A definição disso não importa , o importante é que meu filho vai crescer no meio de pessoas que o amam, e aprender que a figura materna dele , esteve presente com ele em todos os momentos e que ele jamais poderá destratar nenhuma mulher , porque ele tem mãe , avós , irmã , dindas – sim, dindas , porque são aquelas mulheres negras , o qual tem um papel importante na sua criação ! – e toda e qualquer mulher e\ou pessoa tem que ser respeitadx(s) , tratado bem . Mesmo sem a figura paterna presente , meu filho entende que ele tem cuidar da mãe e da irmã , da suas avós , das tias , e das tias dindas e toda e qualquer figura feminina que cruzar o seu caminho , e me faz sentir orgulho do futuro homem que estou criando . E isso me faz feliz , me deixa feliz.

Se o relacionamento não me cabe , não tem por que continuar , minha sanidade , minha felicidade vale muito e é muito importante. Se quiser falar , que falem , eu sei o quanto sofri por cada término de relacionamento , mas não da pra ficar com um alguém que não quer mais está ali , que não quer mais ficar comigo por qualquer que seja o motivo ou desculpa alheia . Amor próprio, todos falam , mass só quem está no fundo do poço , sabe o quanto é difícil senti-lo , a vontade de solucionar o problema do relacionamento é muito mais importante do que a sua própria pessoa, a felicidade do filho é mais importante do que a sua , não importa se o relacionamento ja acabou e o que restou só foi a faixada , mais a criança ta contente ,isso é muito relevante e significativo .

Então ,cara leitor@:

Ame-se! Viva pra você! Doi , mas passa ! Lute por si mesmo !

Não aceite menos do que você considera bom pra você! Sua felicidade vem em primeiro lugar ! Não vale a pena , se desgastar por um alguém que não tem mais interesse de ficar! Quem quer ficar, fica e faz a diferença ! Chega de feminicídio. Juntas podemos muito mais!

(Texto de: E. Calmon)