Se fere minha existência, eu serei Resistência

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Todo dia de manhã, eu tenho acordado, penso no que está acontecendo no Brasil, tem dias que choro e no fim eu concluo, “preciso resistir”! Mas existe algo na terapia que muitas pessoas não sabem: quem descobre sobre a sua vida e sobre você, é você mesmo, não o terapeuta, então eu parei para pensar- apesar de não estar em terapia nesse momento, eu utilizo o que aprendi para dar conta, mas não recomendo, FAÇAM TERAPIA- e pensei em todo o meu percurso até os meus 25 anos de vida.

Minha família por parte de pai, que foi com os quais eu cresci, sempre me ensinou que Nós, pretxs, precisamos estudar e trabalhar muito. Meu tio tinha um discurso dos três princípios: primeiro o estudo, depois o trabalho e por último um marido. Obviamente conservador, mas a ideia principal eu captei muito por conta da minha própria experiência, então eu cresci sendo estimulada por elxs e a minha mãe que investia muito em leitura para mim, além de trabalhar muito para pagar escola particular. Então eu nunca perdi de ano e sempre me cobrei muito para tirar boas notas, logo, como eu tinha dificuldade com matemática, eu pedia ajuda a algumas amigas mais velhas e nunca aceitei que minha mãe gastasse ainda mais comigo com reforço escolar. Eu tive sorte com algumas coisas, e uma tia que custeava muita coisa quando precisávamos.

Na adolescência, eu observava meus colegas com atitudes de rebeldia e até quis me igualar a eles, ser como todo mundo. Mas aquele lugar não me pertencia, existiam pessoas investindo em mim e eu mesma precisava, para sobreviver. Então eu continuei minha luta diária, numa cidade governada por João Henrique e que foi a pior época de Salvador, então os pontos de ônibus ao meio dia, sem proteção e com esperas sem fim do ônibus era a minha labuta. Muitas vezes, eu almoçava Mikão, pra economizar o pouco dinheiro que eu tinha para o lanche para ter dinheiro durante a semana inteira, desde cedo eu aprendi a pensar bem nele antes de gastar, por que poderia servir para comprar o pão. Mas eu continuei sem perder de ano, e me esforçando ao máximo para absorver tudo. Nunca fiz um curso de inglês, e mal tive aulas na escola, mas eu aprendi muita coisa com a internet, sozinha.

Depois de dois anos tentando o vestibular, eu consegui uma parte de uma bolsa em um cursinho, e a outra parte minha tia e minha mãe dividiram. De forma alguma eu poderia pensar em não passar em nenhum vestibular. Como eu sempre estudei em instituições privadas, tive muitas amigas brancas, poucas pretas. E quase todas muito privilegiadas financeiramente, logo, eu fui assimilando e dando sentido para as situações de racismo que eu vivenciei e fui exposta a minha vida inteira, inclusive por me relacionar com homens brancos nesse processo e obviamente que eles não queriam que ninguém ficasse sabendo. Sempre foi muito nítido para mim, as minhas amigas eram sempre as mais bonitas e cobiçadas e eu era a broder! Então eu compensava sendo inteligente, mesmo com as dificuldades e todo o cansaço que resistir exige; ler livro em engarrafamento era um hábito pra mim.

Quando eu passei no vestibular, graças ao processo de interiorização do ensino iniciado no governo de Lula quando Haddad era ministro, eu vim fazer Psicologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Como a UFBA era na época muito concorrida, a minha nota não foi suficiente para passar em psicologia, então acabei conseguindo em uma instituição nova que poucas pessoas conheciam. Providência divina! Eu tive uma formação de êxito que durou exatamente o tempo previsto de curso, apesar de muita greve e ocupação: cinco anos. Cinco anos de muita luta, literalmente. Preto na Universidade incomoda; incomoda colega, professor, servidor. Uma vez eu ouvi de um professor que os cotistas tinham baixado o nível do curso de medicina, pois eram pessoas que não sabiam nem escrever; até hoje eu me questiono como ele sabia quem era ou não cotista apenas corrigindo prova e olhando para a cara dos estudantxs? Ora, ora, preciso ser redundante, a galera se treme com os pretos na Universidade, bebê! Aqui é dado a largada, mas muita gente emperra no caminho porque não tem dinheiro, claro que a maior parte dos pretos. Por exemplo, existe uma avaliação chamado Barema, onde você precisa cumprir carga horária complementar indo para eventos, que custa muitas vezes dinheiro de inscrição, para o deslocamento, estadia, etc. É por isso que existem as Ações Afirmativas, também pensado pelo ministro Haddad, onde existem programas de permanência com bolsas, residência, auxilio deslocamento para quem não é da cidade. Obviamente que eu recebi bolsa durante toda a minha formação, e ainda assim eu vivi momentos de não ter nem o que comer e nem grana para comprar, mas aí eu resisti.

Eu nasci com buceta e preta! Eu sofri assédio sexual, abusos, ameaças de estupro, e ainda fui cobrada a entrar no padrão: alisar o cabelo, fazer academia, ser bonita para ser olhada. Derramei muita lágrima, dependi de homens e quase sempre me decepcionei com eles e aprendi a me virar sozinha contando com algumas pessoas, a maior parte delas, mulheres. Muitas vezes auto-didata, eu entendi desde muito cedo que eu valia muito pouco para as pessoas por ser mulher e preta até abrir a boca e transmitir o que penso com nitidez, como é até hoje. As pessoas muitas vezes me ignoram, uns ouvem o que eu tenho a dizer quando eu começo a falar, e outros continuam a me ignorar mesmo que eu fale. Isso acontece porque simbolicamente as pessoas querem e esperam que eu ocupe o lugar de submissão e do silêncio para ser objetificada e explorada. E ainda cotidianamente eu preciso mostrar que tenho plena competência para ser psicóloga, por que ao me verem as pessoas pensam que eu sou qualquer funcionária, menos a com diploma de ensino superior.

Eu não cheguei até aqui para desistir agora! Nem por decreto eu abaixo a minha cabeça para ser governada por um facista que representa tudo de ruim que eu vivi a minha vida inteira. Todas as violências que eu vivi, não são nada perto do que as pessoas têm feito sendo legitimados. Eu sinto medo, mas eu sei que não estou só, eu tenho Iansã, eu tenho Oxum e Oxalá. Eu tenho minha mãe, minha família e minhas írmãs. Estávamos juntas na ciranda e sentimos a energia que juntas podemos emanar. A força que juntas alimentamos reciprocamente. Nós somos as bruxas que ELES não conseguiram queimar, pois trazemos nas veias o sangue da luta diária de sermos MULHER!

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Quem é a sociedade que vota em Bolsonaro?

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Eu tenho pensado muito sobre a nossa situação atual tentando entender o que aconteceu com o nosso país. Então, andei pesquisando algumas coisas e assistido algumas entrevistas, documentários e filmes. A política é reflexo da organização social; é a própria interação social e a maneira como nossos políticos legislam e decidem por nós tem muito a ver com a forma como nos comportamos socialmente e não, eu não estou falando do “jeitinho brasileiro” que é o comportamento corrupto que demonstramos nas pequenas coisas, não existe só corrupção na política. Eu falo da vaidade e entre outras coisas, o egocentrismo que nos faz jogar baixo. O próprio ex-presidente do PSDB fez uma autocrítica ao seu partido por eles terem questionado a reeleição de Dilma e desde lá, o ego ferido por Aécio ter perdido, fez o partido vetar todas as propostas do PT, afastar a Dilma e o resto da história já conhecemos, atualmente o partido perdeu a maior parte das cadeiras do parlamento para o PSL. E assim somos nós, sociedade, brigamos tanto por tanto tempo por visibilidade, respeito, igualdade; estamos em uma sociedade estratificada por quesitos que diferenciam as oportunidades. Já sabemos que 9 em cada 10 presos ou mortos pela polícia são negros, assim como os índices de feminicídio aumentaram 37% para mulheres negras e diminuíram 12,7% para mulheres brancas. Se formos adiante com as comparações, vamos perceber o quanto somos intolerantes à diversidade: o quanto somos conservadores.

Não percebemos o Facismo chegando. Não atribuímos tanta gravidade quando algumas pessoas se queixavam do Politicamente correto, pois queriam continuar fazendo piada com as camadas oprimidas; não nos damos conta de que a nossa tia cristã que diz que “ser sapatão e viado é coisa do demônio” queria que literalmente fôssemos abraçar o capeta. Ainda que Bolsonaro diga que a “polícia tem que fazer o trabalho dela sem ser incomodada” e propõe o ¹Excludente de Ilicitude e ainda completa que não importa se morrer inocentes, ele é defendido por camadas populares também. Há uma ingenuidade na ideia de que o projeto de governo dele é um disparate desgovernado, mas ao ver a entrevista do seu assessor, o economista Paulo Guedes², eu percebi que existe um projeto liberal que agrada e muito empresas privadas, pois envolve a venda da Petrobrás, a cobrança de mensalidades nas Universidades Públicas, o sucateamento do SUS e da Assistência Social. Não é por coincidência que o STF agora está investigando o candidato por crime eleitoral por estar sendo financiado por empresas que estão pagando para impulsionar Fake News sobre Manuela e Haddad, o que acirrou o Discurso de ódio antipetista.

As pessoas ao meu entorno estão tristes, com medo ou inseguras, pois não se trata apenas do poder executivo está sendo ocupado por alguém que representa tanta coisa ruim, mas também por que o Politicamente Correto foi abandonado e as pessoas estão externalizando todo o ódio que foi por muito tempo velado. O que Bolsonaro representa é o que há de mais conservador na sociedade; NÃO EXISTE DEMOCRACIA RACIAL, MERITOCRACIA E MUITO MENOS IGUALDADE DE GÊNERO. E é isso que as pessoas não estão conseguindo ver, os avanços que temos feito é retroceder agora. É voltar para um momento em que a população LGBT precisa voltar para o armário, em que o pobre volta para a linha da miséria e a classe média para a linha da pobreza. Pensem a quantidade de empregos que serão perdidos com a privatização das estatais, em quantos pobres vão morrer na periferia porque a polícia vai poder entrar e matar e ser condencorada por isso, se sendo crime eles já matam agora o Genocídio vai tomar mais força. As Universidades Púbicas são responsáveis não somente pela educação, mas pelo avanço científico, econômico e social. O que seria de Santo Antônio de Jesus, onde muitas pessoas vivem de construir e alugar casas para estudantes, sem a UFRB?! É só uma questãozinha da pontinha do Iceberg que precisa ser pensada. As escolas precisam de investimento, um olhar cuidadoso, e não serem extintas para que a educação seja à distância. A nossa segurança parte de uma boa educação, de investimentos em saúde, uma economia segura e o fim da desigualdade.

Estamos em um momento delicado, onde temos um inimigo muito forte: o ódio. E não é brigando entre nós por espaço que vamos derrotá-lo, muito pelo contrário, será pela união. Coletivizar não é fácil, vivemos por tanto tempo sobre o domínio do capitalismo que a individualidade tomou conta das nossas atitudes, o que nos impede de ter empatia, de olhar para o outro e entender que o outro tem um lugar de fala e muitas vezes esse lugar é silenciado e cabe a quem conseguiu avançar, romper com as amarras. É preciso aprendermos a dialogar entre nós, entre as nossas diferenças, respeitando o limite do outro, ouvindo muito mais e aprendendo a dividir. Eu, mulher preta, tenho muitas queixas com relação a como os homens pretos nos tratam, mas ainda que eu apresente as minhas críticas, para mim é importante deixar nítido que ainda os vejo como parte de nós e que isso não significa que eu vou deixar de falar o que penso quando achar necessário. Precisamos encontrar um jeito de aprender a dividir os espaços, nos fortalecer e devolver ao nosso inimigo todo o amor que lhe falta. Porque tudo o que não for adequado ao padrão do conservadorismo, é RESISTÊNCIA.

 

¹O “excludente de ilicitude” é a exceção em que os cidadãos, incluindo aí os próprios policiais, podem cometer um ato que está proibido e tipificado no Código Penal, como furtar, roubar ou matar. Um policial que mata um suspeito durante um tiroteio vai responder por homicídio, mas pode recorrer ao dispositivo e, se o juiz entender que as circunstâncias se encaixam no excludente, ele não será punido. Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/10/01/O-plano-de-Bolsonaro-sobre-%E2%80%98excludentes-de-ilicitude%E2%80%99
²Paulo Guedes é investigado desde o dia 2 de outubro pelo Ministério Público Federal em Brasília por suspeita de envolvimento em fraudes em fundos de pensão junto com dirigentes das entidades ligados ao PT e ao MDB. Acesso <https://oglobo.globo.com/brasil/mpf-investiga-paulo-guedes-assessor-de-bolsonaro-por-suspeita-de-fraudes-em-fundos-de-pensao-de-estatais-23145487&gt;

 

Não é guerra, é Genocídio!

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“Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito”

Cotas não é esmola, Bia Ferreira.

Eu mal podia conter as minhas lágrimas quando ouvi as palavras daquela moça: “Eles vão me matar senhora, como é que meus filhos vão ficar sem mim?”. Mulher negra, pobre e periférica, foi ameaçada por traficantes depois que um foragido foi morto pela polícia que ainda foi vista falando ao telefone na porta da “moça”; Ela foi sentenciada após isso como “caguete”, e precisou fugir com a roupa do corpo e a família para outra cidade. Seu desespero era conseguir uma documentação, na correria havia deixado sua bolsa na casa, e sair da cidade o mais rápido possível, se não seria morta.

Uma frase dita por ela ficou marcada na minha memória: “Nessa guerra deles quem sobra somos nós, moradores”. Isso tudo me tirou o sono, foi um dia daqueles. A Guerra às Drogas foi uma política que se iniciou em 2000 e foi uma decisão política. Desde então o Brasil gasta bilhões com a segurança pública e enfrenta o “Terror das Criancinhas”: as drogas ilícitas. Bom, o ser humano tem utilizado drogas desde que aprendeu a extrair elas da natureza. Desde então grande parte da sociedade consome analgésicos, Rivotril para dormir, remédios para melhorar a concentração, coca-cola, bebida alcoólica e sem contar com a nossa alimentação envenenada com os agrotóxicos que cada dia mais inflama nosso organismo. Outro dia eu fiquei surpresa com o saco de remédios que uma senhora tinha na bolsa. Mas por uma escolha política, decidimos que algumas drogas seriam condenadas ao ostracismo e o seu uso e comércio condenado legalmente e perseguido fielmente pela polícia.

Eu falei de tudo isso, pra chegar no ponto que mais me impressionou: a comunidade. É mais uma que eu conheço, afastada do centro da cidade, um lugar aparentemente abandonado, sem instituições legais, era como uma cidade abandonada e a pobreza estampada. Foi triste de ver. Como é um lugar longe, a locomoção depende do escasso transporte público para chegar ao centro da cidade, onde funciona toda a economia da cidade. Aquelas pessoas estão aprisionadas em sua própria realidade social! Uma vez eu ouvi de um morador, que a Samu não chega lá sem a polícia e muitas vezes demora muito para chegar, mas a farda acompanhada do Giroflex, marcava presença sempre. Quando um animal é enclausurado e violentado o que acontece se ele for solto? Já sabemos a resposta disso com o encarceramento em massa e o resultado da “ressocialização” realizada nas prisões. Essas pessoas são tratadas como lixo, a escória da sociedade, que não tem direito a ter direito e acessar o que é necessário para que ele aja com cidadania, sem acesso a educação de qualidade, saúde, lazer, o que já é de práxis ser dito. Mas por que isso continua sendo dito e ninguém ouve? Até quando vamos continuar deixando o Estado ter um pretexto para assassinar e desumanizar a população negra? Ou você ainda acha que é coincidência que a maior parte, se não toda essa população é negra? O nome disso é Racismo Institucional, o desleixo de uma instituição na oferta de serviços e implementação de políticas públicas e afins para a população negra. Quando a gestão administrativa da cidade não se interessa em criar ações para o acesso da comunidade a direitos básicos, como os citados, ela está sendo racista. Tudo se trata de escolhas políticas, ao invés de bilhões em segurança pública, se metade fosse investido em políticas públicas, essa realidade não seria tão drástica e não estaríamos perdendo a vida de negros e negras diariamente no confronto.

A sensação de impotência é sempre latente. Eu sei exatamente como tudo poderia ser feito diferente, o mínimo que estudamos na formação na UFRB me permitiu isso, mas eu não tenho poder para isso, não sozinha. Cada dia mais eu tenho tido certeza disso, estamos no mundo para vivermos coletivamente e isso significa igualdade entre as pessoas, significa pensar se queremos uma sociedade justa que nos dê segurança e não a ilusão dela. Mas para quem sente as opressões na pele isso é quase uma Utopia. E pra quem grita por justiça, esse é mais um lamento e uma denúncia dentre tantas. O que causa dependência e destruição não são as drogas, são as vulnerabilidades sociais, é ser um preto favelado que sofre todo tipo de violência e cresce sem boas perspectivas de futuro e no seu entorno o tráfico de drogas movimenta economicamente a sua comunidade. Os “meninos bons”, estão armados, mas possuem a ilusão de que tem dinheiro pra comprar dignidade. E quando não se tem dignidade tudo o que resta é a clandestinidade e a dependência, e sem tirar nem pôr, vemos isso principalmente com o álcool. O etilismo tem estado presente na vida da população negra desde que o escravo só tinha acesso a pinga para poder viver um pouco de liberdade. Então sem moralismos, tá na hora de pensarmos em alternativas de cobrar que a administração pública implemente e invista em políticas públicas.

“Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala
Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, ‘então não vai ter pão’
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita”

Cotas não é esmola, Bia Ferreira.

Quanto vale a felicidade ?! Até que ponto vale a pena “sangrar” pelo outro ?

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A sociedade impõe desde cedo que a mulher tem que ser submissa ao homem. Até a própria bíblia ensina e/ou transmite esse ensinamento por que ele é “o cabeça da casa”. Tantos paradigmas , tantas lições de como ser a esposa perfeita , no entanto , vale a pena sangrar pelo outro ou pelos dois ?!

Século XXI ,uma mulher não pode ser mãe solteira/solo. Para uma criação completa e perfeita de uma criança, é necessário(?), a presença do pai , e é daí que nasce o questionamento , será que é mesmo necessário ?! Tantas mães solo, que todos os dias acordam cedo, pra ir pro “corre”, arruma a(s) criança(s) pra ir a escola/creche/casa da moça que toma conta , e saem na “correria “mesmo, pra ir atrás dos seus sonhos/ da melhora de vida da família a qual ela tem que cuidar sozinha , porque aquele cara que a sociedade impõe necessário teve o seu direito de escolha e escolheu viver a sua própria vida sozinho ou com outra pessoa. O cara que teria que ser a cabeça da casa e que a mulher deveria ser submissa ,preferiu sair de casa por vários motivos : pra não ter tantas cobranças , porque disse que o amor acabou , porque a mulher agora não tem mais tempo de se cuidar como antes, porque o casal não estava mais se entendendo , uma infinidade de motivos ou desculpas mesmo .Mas, até ele sair , nossa cara , acontece de tudo um pouco , discussão intermináveis, trocas de ofensas quando, nenhum dos dois estão aguentando mais guardar aquilo que está incomodando, ele sai sem hora pra voltar , e ela fica em casa só ou na companhia do filho esperando por um alguém que, nem tem mais nenhuma vontade de esta ali com ela ou com a família. Porém ,se ele sair , como vai fazer pra se manter , já que é casada ? Já que tem filhos ? Ai, os filhos ! Como contar pra ele que o papai ta saindo de casa ? Que a qualquer momento ele pode aparecer com uma família nova? Enfim , uma solução : deixa as coisas como estão , o “papai” não vai sair de casa , os filhos não vão mais ficar tristes e nem perguntando porque ele dormiu fora! Mas, e a sua felicidade? Ah , nessa altura de campeonato, fica pra depois vale a pena o “sacrifício” , é para o bem de todos. Todos ?! Todos , quem ?!

Ninguém se lembra de como tudo começou. Eram flores , apelidos extremamente carinhosos , fotos pra eternizar todo e qualquer momento, trocas de mensagens nas redes sociais, declarações nas redes sociais, café na cama, alianças, tantas formas de expressar todo e qualquer sentimento , nesse começo há felicidade, mas aonde foi que essa felicidade foi parar ? No meio do caminho ?! Será que alguém esqueceu o que motivou tantos eu te amo ?! E porque depois de alguns anos o amor acabou ? Como assim , a relação desgastou? Não importa o que aconteceu , o que importa é que ele ta ali ,ta ali com os filhos , até dá o horário das suas próprias atribuições e o resto da casa e as crianças que fiquem pra mulher cuidar , ele só ta ali por estar mesmo . Um possível relato fictício , porém tão real na vida de varias mulheres , que não saem de uma relação abusiva por conta dos filhos , por que de fato não tem como se manter na vida , sem emprego, sem ter pra onde ir ou aquém recorrer , ou porque realmente amam e levam a instituição casamento a serio , onde somente a morte pode separar . É, a morte tem levados varias manas pro cemitério. Triste realidade , porém muito real . Tristeza, insatisfação com a vida, falta de amor correspondido , violência verbal , psicológica , vão puxando pro fundo do poço , até chegar na depressão , de forma muito silenciosa e sorrateira e quando se percebe , aquela mana se suicidou pra aliviar a dor ou saiu pelo mundo a fora ,achando que vai melhorar a vida daqueles que deixou em casa – isso é, quando , não sofre violência física e que a leva pro cemitério também da mesma forma.

A pessoa que vos escreve , é uma mulher negra , mãe solo de duas crianças, um menino de 4 anos e uma menina de 9 meses , filhos de pais diferentes , que mora com os pais e o irmão,ta no corre todos os dias , se dividindo entre faculdade e a casa , sendo que a maternidade chegou antes dos 18 anos completos , hoje tem 23 anos incompletos , mas já ta na porta de saída da faculdade. Corre pelas estações de metrô pra conseguir chegar em casa cedo , pra conseguir chegar no estagio cedo, pra chegar em casa antes da próxima mamada da bebê – que passou o dia inteiro sem a mãe. Uma mulher negra que cuida dos filhos com a ajuda e apoio financeiro dos pais . com ajuda e apoio moral de outras mulheres negras , as quais tenho maior orgulho de compartilhar a criação dos meus filhos. Que teve que sair pra ir estudar quando o primogênito tinhas apenas 60 dias de vidas, deixava ele com a mãe-vó , tirava leite a noite (parte mais dolorosa do dia), porém, não era só com a mãe-vó que ele ficava , tentou ter alguém na sua casa pra ficar com ele -não deu certo- então , ele ficava na casa do parente que podia acolher. Sair de casa não é/era tão doloroso, até porque a saída é ,pra garantir a melhora de vida deles , a própria melhora de vida , a estabilidade dos filhos .

É difícil ser mãe solteira , nessa sociedade extremamente machista , onde o seu filho tem que ser ensinado a ser “cabra- macho” . No entanto , o que é ser cabra-macho ?! A definição disso não importa , o importante é que meu filho vai crescer no meio de pessoas que o amam, e aprender que a figura materna dele , esteve presente com ele em todos os momentos e que ele jamais poderá destratar nenhuma mulher , porque ele tem mãe , avós , irmã , dindas – sim, dindas , porque são aquelas mulheres negras , o qual tem um papel importante na sua criação ! – e toda e qualquer mulher e\ou pessoa tem que ser respeitadx(s) , tratado bem . Mesmo sem a figura paterna presente , meu filho entende que ele tem cuidar da mãe e da irmã , da suas avós , das tias , e das tias dindas e toda e qualquer figura feminina que cruzar o seu caminho , e me faz sentir orgulho do futuro homem que estou criando . E isso me faz feliz , me deixa feliz.

Se o relacionamento não me cabe , não tem por que continuar , minha sanidade , minha felicidade vale muito e é muito importante. Se quiser falar , que falem , eu sei o quanto sofri por cada término de relacionamento , mas não da pra ficar com um alguém que não quer mais está ali , que não quer mais ficar comigo por qualquer que seja o motivo ou desculpa alheia . Amor próprio, todos falam , mass só quem está no fundo do poço , sabe o quanto é difícil senti-lo , a vontade de solucionar o problema do relacionamento é muito mais importante do que a sua própria pessoa, a felicidade do filho é mais importante do que a sua , não importa se o relacionamento ja acabou e o que restou só foi a faixada , mais a criança ta contente ,isso é muito relevante e significativo .

Então ,cara leitor@:

Ame-se! Viva pra você! Doi , mas passa ! Lute por si mesmo !

Não aceite menos do que você considera bom pra você! Sua felicidade vem em primeiro lugar ! Não vale a pena , se desgastar por um alguém que não tem mais interesse de ficar! Quem quer ficar, fica e faz a diferença ! Chega de feminicídio. Juntas podemos muito mais!

(Texto de: E. Calmon)

Para quem é o “Sábado à noite”?

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Ler sobre a Solidão da mulher negra me dá uma dimensão teórica muito interessante, por isso aconselho as pessoas a lerem sobre. Mas vivenciar isso é foda! Em um fim de semana me propus a curtir em lugares que me mostraram muita coisa, entre elas que o meu corpo é hiperssexualizado, objetificado e rejeitado. Em uma festa perdi as contas de quantas vezes as pessoas tocaram na minha cintura, seja pra me elogiar ou até para pedir licença, e já que eu tenho correspondido ao perfil de mulata exportação eu ouvi coisas como, ” Você tem um corpão”! Por que não dava só pra dizer que eu sou bonita? Por que será que os olhares estão muito mais no meu corpo do que nos meus olhos? Não é só por que o meu corpo é bonito, eu já vi muitas mulheres que correspondem ao padrão da branquitude ou próximo dele,que são muito mais respeitadas, eu tenho amigas brancas, não brancas e pretas. EU SEI DO QUE EU ESTOU FALANDO.

Eu me bati com uma figura que ficou fixada em mim, que tentava me agarrar a cada vez que a gente se batia na festa. Provavelmente ela pensou que estava me fazendo um favor por querer ficar comigo, por que ela realmente não parava mesmo eu tendo sido bem direta, fria e seca: NÃO ME TOQUE! O corpo negro é objetificado pela sociedade, não é à toa que a figura do homem preto e da mulher preta, está associado ao erotismo do sexo bom e fácil que é descartado quando se cogita um relacionamento. Aí dá 300 mil desculpas e depois de um tempo assume uma mulher/homem branca/branco ou mais clara/claro com o cabelo alisado.

E outra mulher que nitidamente estava afim, daquele tipo de lésbica machistinha que gosta de “mijar no território”( Para quem não sabe, essa é uma expressão popular que significa que é uma pessoa que gosta de aparentar que tem algum poder sobre o meu corpo). Infelizmente eu vivenciei a minha vida hétero com pessoas assim, então eu reconheço cada sinal de que se trata de machismo+racismo. Por que, para deixar nítido, nós não ficamos já que mulheres negras são para o final da festa, em um lugar privado, longe dos olhares externos, então quase sempre eu sou reservada para o final e nesse meio tempo a pessoa dá sinais de que quer ficar, em uma paquera, sem chegar às vias de fato. E se você falar qualquer coisa, como eu estou fazendo, é tirada como louca! Mas eu não estou falando com você, abusiva. Você está reproduzindo o que aprendeu com o seu meio, é por isso que você fica/ ficou a noite toda com as mulheres próximas do padrão da branquitude, ou mulheres brancas, publicamente. Mas a minha conversa é com quem vivência isso, como eu, quem sabe exatamente sobre o que eu estou falando.

Eu realmente me senti mal no começo, até entender do que se tratava e que isso não é culpa minha. Decidi não me sentir mal com algo que não é problema meu. Foi um longo processo de enfrentamentos individuais e coletivos, que me permitiram entender que isso não pode me atingir por que não é algo que eu possa mudar, não é responsabilidade minha fazer as pessoas entenderem que estão sendo racistas comigo. Em algum momento da noite eu comecei a pensar no quanto eu sou amada, pelos meus amigos, pela minha família, admirada por várias outras pessoas. Eu comecei a repassar as evidências de que eu sou uma mulher maravilhosa e muito mais do que apenas um corpo, e que eu mereço não ser vista por pessoas que não saibam disso ou que não queiram saber, já que eu não preciso dessas pessoas para nada. Esse é um exercício de enfrentamento que eu aprendi depois de sucessivas situações de violências que eu vivenciei. Dar-se conta delas não é difícil, a gente sente a rejeição e o lugar de inferior que tentam nos colocar; o difícil mesmo é admitir isso pra você e para as outras pessoas. Eu sei que falar sobre isso é um ato de coragem, vivem me dizendo isso. É que apesar de doer, é necessário elaborar, levantar a cabeça, sacudir a poeira e falar para todo o mundo o quanto a sociedade nos violenta. É essa a minha estratégia de enfrentamento, é como eu me fortaleço; é a minha maneira de dizer “lidem com suas merdas e assumam que não vivemos na democracia racial e vocês odeiam pretos”!

 

O corpo encarcerado

 

” Em uma noite qualquer, voltando com os amigos para casa, Ela tava vestida como sempre gosta de andar: à vontade com um short e uma camisa grande e folgada por cima, mas como se trata de uma sociedade machista ela ouviu violências verbais de outros homens que a chamaram de Puta, e respondeu, ‘Fogo nas putas’ e foi nesse momento que a polícia passou e parou por tê-la ouvido, vestiu a carapuça, é um xingamento machista e generalista! Ao abordarem o grupo, os dois policiais, um negro e um branco, desceram armados da viatura, e o primeiro se recusou a dialogar com Ela, tal qual ela respondeu que ‘não acreditava que o írmão negro se recusava a falar com ela, já que ela é indígena’, a partir disso se iniciou um diálogo truculento que culminou com a sua prisão e a completa distorção da história para enquadrá-la por injúria racial e desacato a autoridade.”

O Brasil tem a quinta maior população de mulheres encarceradas do mundo, ficando atrás dos EUA, China, Rússia e Tailândia. 67% delas são negra (incluindo aqui toda a população não branca) e 50% é jovem, com idades entre 18 e 29 anos. Os números alarmantes são apenas uma pequena fração das situações de violência racial e de gênero que as mulheres negras estão submetidas desde a abordagem policial até o encarceramento em massa. E os alvos dessa violência comumente não é a população que historicamente tem sido favorecida, a escritora Juliana Borges levanta a discussão em sua obra “O que é Encarceramento em massa?” e aponta os dados que demonstram como esse processo de violência tem sido, historicamente, uma ferramenta para anular e exterminar a população negra, desde o incentivo a imigração de Europeus no período pós-abolição, até a proibição de imigrantes africanos no governo Vargas. O encarceramento em massa é a realidade da população negra, e após a Lei de Drogas, sancionada em 2006 (Lei 11.343) o Estado passou a ter um argumento para justificar os mais de 726 mil pessoas que compõe a população carcerária no país e a maior parte dela é negra.

Para quem presenciou situações de violência que envolve a polícia e é preto, sabe bem do que estou falando. Ao presenciar uma cena da ação policial na periferia Santoantoniense, eu escutei o grito de uma mãe que estava “tendo tiro” e quando eu voltei a olhar para rua a atmosfera de medo inundou todo o lugar e a cena de um policial apontando o fuzil pra uma mulher com um menino ficou registrado na minha memória, junto com a dor no estômago que pontou como se tivessem me dado um soco no estômago. Não se preocupem, não é fome ou gastrite, meu corpo carrega as marcas invisíveis que as opressões deixaram em mim, e toda vez que eu fico mal isso se expressa em sintomas físicos. A sensação é de um soco no estômago, porque é a violência que mais reverbera e nos mostra o quanto somos impotentes e o quanto a nossa vida não tem valor. Só dói! E esse soco no estômago é dado por cidadãos de bem ao pregarem que “bandido bom é bandido morto”, porque esse bandido é quase sempre preto.

É fácil pra algumas pessoas se sentirem mais seguras com a ação da polícia e pra outras essa sensação de segurança não chega. Eu me sinto insegura com a policia porque além de presenciar cenas de violência, eu me sinto alvo dela só pela cor da minha pele. Enquanto o tiro de fuzil metralha o corpo preto, o de pistola que devolve muitas vezes não está na mão desses meninos e quando estão não é tão rápida quanto o calibre da arma do Estado que a segurança pública investe todo ano, bilhões, mas a notícia no jornal nunca é que a polícia sumariamente assassinou jovens desarmados por serem traficantes, a notícia é sempre uma troca de tiros, e assim como a história contada no início do texto, a versão é distorcida. E a mãe preta se desespera com a presença deles só por saber que seu filho de 14 anos poderia estar na rua brincando e ser levado no camburão. Mas cada ação da polícia é veiculada pela mídia como ato heroico e reforçada pelo governante que nada mais ganha além de dinheiro e voto com cada corpo morto de um jovem preto e pobre. São vidas que não possuem valor monetário ou simbólico para o capitalismo e como tal serve como objeto da segurança pública. E o que dizemos do homem por trás daquela farda?! É apenas o capitão do mato. Em 1950 quando a Instituição da Polícia Militar é instaurada, o principal papel desses homens era a manutenção da ordem. Com o tempo isso foi sendo refinado e se tornou um papel determinadamente Ostensivo e de controle social. Com a guerra às drogas, isso foi se tornando ainda mais intenso, enquanto o sistema econômico continua incluindo seletivamente as pessoas negras e pobres em lugares subalternos sujeitos à humilhação social com privação de liberdade de forma institucional ou não.

Aqui não cabe julgamentos a apenas a farda que carrega o fuzil. Antes dela temos uma hierarquia social, onde a polícia é a base da pirâmide e é pressionada para elevar os números da segurança pública para aumentar os níveis de aceitação da gestão pela população, isso significa dizer que a sociedade é racista e a não visibilização dessas questões com relação à morte e prisão em massa de pessoas negras, demonstra o quanto persevera-se a ideia de que o corpo preto e pobre vale menos. É a própria sociedade que aplaude as ações truculentas da polícia que é apontada negativamente por dados estatísticos e é a própria sociedade que puxa o gatilho do fuzil da polícia que mata o preto e pobre da favela.

“Once upon a time” (Era Uma Vez)

Era uma vez uma bela mulata chamada Solange. Solange, tal qual (a única pesquisa sobre a solidão da mulher negra que eu encontrei apresenta a porcentagem de 44% das mulheres negras nos EUA que nunca se casaram), viveu poucos relacionamentos- se é que podemos chamá-los assim- e os poucos que viveu foram abusivos e a deixou com mais inseguranças sobre si mesma, e com mais dificuldade de se abrir emocionalmente com outra pessoa. Seu ex, não tem muito tempo, achou que poderia aparecer com um presente para ela e dizer que “Tá tudo ok”, mas ele é tão tóxico para ela que isso só desencadeou uma crise de ansiedade que envolve um sentimento de inferioridade capaz de levá-la a provocar dor física em si mesma para que a dor interna, essa chamada angústia, doa menos. Silenciosa, sozinha, chora! Mas como essa é a história que começa com uma expressão que respresenta o final feliz dos contos da disney, Solange encontrou o seu Principezinho Encantado, quer dizer, ela achou ter encontrado ou ele a fez pensar que ele era um Principe. Seu interesse em Solange, sua presença nos momentos de dor em meio a crises de choro, ele até se interessou pela arte em que ela expressava seu Eu, ninguém antes tinha demonstrado tanto interesse. Era perfeito, mas não tanto assim. No seu aniversário ela não mereceu os seus parabéns ou felicitações dele, mas no aniversário do Principezinho ele recebeu um bolo de presente dela. E as suas justificativas eram sempre razas, onde ele dizia ser apenas o jeito de ser dele. Bom, Solange acreditou, afinal outras mulheres lhe disseram que ele era realmente imaturo, despreparado para relacionamentos; ela alimentou a ilusão de que ele poderia ter medo de assumir responsabilidades, não estivesse pronto, talvez. Mas o conto de fadas não acabou com Felizes para Sempre, Solange viu o Principezinho se transformar em sapo ao vê-lo de mãos dadas na maior festa da cidade com uma mulher de pele clara. Fim.
As princesas da Disney não tem a pele negra e o cabelo crespo, não são gordas, não são trans, são brancas, muitas vezes loiras, magras e… brancas. O ideal de beleza Universal é esse, isso é demonstrado nas taxas de mortalidade (a taxa de mortalidade de mulheres negras subiu 14% nos últimos anos, enquanto que o de mulheres brancas diminui 9%), nas taxas de vítimas de violência (59,4% dos registros de violência doméstica no serviço referem-se a mulheres negras), na porcentagem de solidão(37,7% das famílias são chefiadas por mulheres negras sozinhas), na porcentagem de pobreza( cada 4 pessoas que estão na taxa de 10% mais pobres são mulheres negras), na taxa de desemprego (do total de 12,4% de desempregados na capital Baiana, 73% são mulheres negras) e até na prcentagem de menor remuneração trabalhista (quase 40% das mulheres negras ocupam cargos em subempregos). As mulheres negras estão na base da pirâmide capitalista desde sempre, assim como na pirâmide do preterimento que em contraposição ocupa o Rancking.

A história de Solange se repete entre o meu círculo de amizade e vai se ampliando a cada vez que eu participo de outros espaços de formação que envolvem a discussão da situação da mulher negra na nossa sociedade. A cada vez que eu ouço mais mulheres que fazem parte de outros círculos, muitas vezes de outros estados do país, essa história se repete. Dessa vez eu não quis narrar minha própria história porque ela durou 4 anos e deixou marcas tão profundas que eu ainda sofro ao ver minha írmã sofrer com a sua experiência. Ano após ano esperando o minimo de reconhecimento, mas eu não passava de uma figura que ocupava a marginalidade na vida dele. E levamos tanto tempo pra entender que o preterimento no qual estamos sujeitas não é um problema nosso, aliás é visto pelos racistas como um problema em nós, mas é um problema deles pensarem que não somos suficientemente boas para elxs por sermos pretas. Não tem muito tempo eu soube de um pretinho que se orgulhava de ter iniciado um relacionamento com uma branca, pois agora ele poderia apresentar a mesma para a mãe dele: “agora sim eu tenho uma mulher digna de ser apresentada a minha mãe”. Ele mal percebeu que dizer isso pra mulher negra com quem ele tinha se relacionado sexualmente era relegar a ela o lugar de insuficiência, inferioridade, incapacidade; a branca é ideal para apresentar a sua mãe e a preta não? Como na história de Solange que o Principezinho se incomodava com o que as pessoas pensavam sobre eles dois juntos, de forma bem explícita o incomodo está estampado no tom da nossa pele, na textura do nosso cabelo, no formato da nossa boca, do nosso nariz; o problema está em assumir o que está socialmente estabelecido que é um corpo renegado, excluído, mal-visto. ” Preta para trabalhar, Mulata para fornicar e Branca para casar”.

Bell Hooks fala sobre a relação difícil que as mulheres negras possuem com as brancas. Desde o período da escravidão onde a escrava mulata era extremamente violentada pela Senhora, já que, o Senhor estuprava a escrava que ainda via seus filhos serem separados dela com a anuência e muitas vezes feitas pela Senhora. O feminismo de 1º e 2º onda não incluia o recorte de raça nas dicussões e pautas do movimento e isso excluía consideravelmente as mulheres negras, jás que as mesmas agora com o Capitalismo, são exploradas economicamente pelas mulheres brancas. Todo esse histórico nos afasta e segrega as mulheres e a “cereja do bolo” é o envolvimento dos homens pretos com a mulher branca, e dessa forma ascende socialmente com o embranquecimento e consequentemente isso acontece às custas da solidão da mulher negra. Eu vi o meu pai fazer isso com a minha mãe, e trocá-la por uma mulher branca com a torcida de familiares já que agora sim ele estava com uma mulher ótima, enquanto a mulher que me pariu e me criou de forma exímia e construiu junto com ele a herança da família, ficava só para me criar. Não quero de novo listar o número de mulheres negras que criam suas crias sozinhas enquanto nossos homens pretos preferem estar com uma branca, os dados estatísticos provam isso.

O grande cerne da questão é que nós somos objetificadas pelo sistema econômico, pelos nossos opostos (a população branca ou não-negras) e de quebra por quem deveria estar do nosso lado e nos fortalecer quando o racismo nos anula: o homem negro. Quando se trata de amor afrocentrado hétero, precisamos ter muito cuidado como vamos olhar, não adianta estar numa relação onde o homem negro trata a mulher com a mesma inferioridade que o racismo o trata. Não somos objetos sexuais ou depósito de espermas, nós somos a Espinha Dorsal dessa sociedade que cria e criou as gerações desde que nós estamos nesse país, seja criando os filhos da Senhora, seja os das patroas assim como também os nossos. E nos é negado o direito de receber o amor e a gratidão inclusive dos homens que saem de nós. Vocês já pararam para pensar nisso?! No quanto vocês negam as próprias raízes escolhendo embranquecer a negritude?! E quando não somos trocadas por uma mulher de pele branca, a mulher de pele mais clara é mais tolerável e muito mais aceita do que uma mulher retinta. E ainda pior do que o preterimento é a falta de responsabilidade emocional de minimamente ser honesto ao invés de jogar a responsabilidade de tudo que se trata do relacionamento nas nossas costas.

Eu convido a todas as mulheres a pensarem sobre o lugar que ocupam na vida de outra mulher. Estamos historicamente sendo violentadas por todas as camadas sociais que compõem essa sociedade. Sim mulher branca e não-negra, corroborar com a opressão de um outro grupo é oprimi-lo, mesmo que não- intencionalmente. A Solidão da Mulher Negra não deve ser discutida apenas por nós, respeitando os devidos lugares de fala, essa temática é um problema nosso, sociedade e principalmente nosso, MULHERES.

E aí Boys Alternativos que berram contra o racismo mas se esbarram oprimindo mulheres negras, a carapuça serviu? Então a vista e faça bom uso dela.

Maeli Santos Calmon.